sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Diogo Mainardi: Sexo e dinheiro, futebol e borracha: o ano do redescobrimento do Brasil

“Os brasileiros têm os dois pés no chão… E as duas mãos também.” Desde quando as primeiras caravelas dos europeus atracaram no Brasil, mais de cinco séculos atrás, muitos narradores tentaram compreender e descrever o caráter de nosso povo. Navegadores, jesuítas, piratas, garimpeiros, naturalistas, traficantes de escravos, aventureiros, filósofos, antropólogos, escritores: cada um deles tentou explicar aos seus semelhantes os traços marcantes do Brasil e do nosso povo pitoresco. Pouquíssimos conseguiram.

2014 será o ano da redescoberta do Brasil. Cronistas oriundos dos lugares mais improváveis irão atravessar o oceano e por seis meses, precisamente até o final da Copa do Mundo, 13 de julho, irão encher seus desinteressados e desinformados compatriotas com notícias sobre o Brasil. Recomenda-se a todos que renunciem imediatamente a qualquer tentativa de originalidade e passem a plagiar despudoradamente o mais feroz dos nossos humoristas, Ivan Lessa, que foi capaz de resumir a essência da nossa espécie em uma única frase: “Nós temos os pés no chão e as mãos também.”

Se Ivan Lessa, o nosso Apuleio, se destacou pela capacidade de revelar nossa natureza quadrúpede – os jumentos verde-amarelos – o historiador Paulo Prado, muito antes dele, deve ser lembrado por uma façanha igualmente relevante: ele diagnosticou nossa psique patologicamente melancólica. O seu “Retrato do Brasil”, com o subtítulo “Um ensaio sobre a tristeza brasileira” de 1926, é ainda hoje um guia insuperável para orientar os observadores menos afeitos às questões nacionais. A introdução não deixa dúvidas: “Em uma terra radiante, vive um povo triste”. Os brasileiros não são normalmente associados a estados de humor mais depressivos. Na verdade, é exatamente o oposto: somos festejados em todo o mundo pela nossa ritmada e ensurdecedora despreocupação, pelos nossos modos festivos e lascivos. Mas a tristeza mencionada por Paulo Prado não é fruto de uma angústia existencial, reflexiva, leopardiana; antes, é o resultado da própria luxúria. Sexo, sexo, sexo. Na nossa história não existe mais nada. O Brasil será sempre e só isso: o lugar onde o homem é livre para se comportar como “um bode em um cercado cheio de cabras, sem ideais, sem preocupações estéticas, políticas, intelectuais e artísticas.”

Nas primeiras páginas de “Retrato do Brasil”, carregadas com um pesado e obsoleto sentido de moralidade, Paulo Prado cita o testemunho de Américo Vespúcio sobre os costumes lascivos dos nossos antepassados: “Eles têm tantas esposas quanto queiram, o filho vive com sua mãe, o irmão com a irmã, a prima com seu primo, e todo homem com a primeira que aparece.” Em 14 de junho de 2014, após o jogo entre Itália e Inglaterra, um padeiro de Castelfranco Veneto, em visita à cidade de Manaus, próximo de onde estava Américo Vespúcio quinhentos anos atrás, poderá repetir as impressões do navegador italiano, usando as mesmas palavras daquele. O sexo, portanto, é o primeiro fator para explicar a nossa tristeza atávica, segundo Paulo Prado. Post coitum animal triste. Mas há um segundo fator não menos importante: a ganância. Enquanto a carnalidade selvagem estrangulou nossas escassas capacidades mentais, a ganância contaminou o nosso precário equilíbrio social. O Brasil foi fundado por bodes gananciosos e sem escrúpulos, dispostos a qualquer ignomínia a fim de conseguir acumular a maior quantidade possível de dinheiro o mais rápido possível e depois voltar com os despojos às suas terras de origem. Os ecos dessa gênese saqueadora são ouvidos ainda hoje na vida cotidiana. De fato, mais que os cinquenta mil assassinatos cometidos todos os anos – em 2013 foram assassinadas mais pessoas no Brasil que na Síria, e será assim também em 2014 –, o que realmente desconcerta é a aceitação resignada desse massacre permanente, como se fosse um elemento inevitável da natureza.

Mas a ganância descrita por Paulo Prado não produz apenas a ruína social: ela também produz frustração pessoal. Porque quase nunca é recompensada. Ciclicamente, o Brasil teve saltos de desenvolvimento e de dinheiro fácil, durante os os quais foi aclamado como o novo Eldorado, mas todos acabaram em poucos anos. Em nossa história tivemos o ciclo da madeira, o ciclo da cana-de-açúcar, o ciclo do ouro, o ciclo da borracha. Todos acabaram, deixando apenas desolação. Recentemente, houve um novo momento de euforia econômica em relação ao Brasil: o ciclo das commodities.


A opulência criada pela bolha das matérias-primas foi representada na capa da The Economist, que em novembro de 2009, estampou a imagem da estátua do Cristo Redentor decolando como um foguete em direção a um futuro magnífico. Quatro anos depois, a mesma revista precisou se retratar, mostrando o Cristo Redentor despencando tragicamente rumo ao chão, enquanto o título indaga: “o Brasil desperdiçou tudo?” Ao longo da história, o Brasil sempre passou despercebido, uma espécie de apêndice da humanidade, um adendo estranho e inútil. Tudo vai mudar em 2014. Até meados do ano, o país será analisado e debatido por uma multidão de incautos cheia de opiniões equivocadas a nosso respeito. Então vamos submergir uma vez mais. Em outubro serão realizadas as eleições presidenciais, mas essas não interessam a ninguém, nem mesmo aos brasileiros. Apesar de a cúpula do seu partido ter sido presa por corrupção há alguns meses, Dilma Rousseff vai ganhar de novo, porque os eleitores estão acostumados há séculos com bodes gananciosos e desprovidos de escrúpulos. Então, para nossa sorte, 2014 vai terminar sem deixar vestígios. Como disse Ivan Lessa: “A cada quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos.”